*Andresa Squiçato dos Santos
Ser criança é descobrir o mundo e, ao mesmo tempo, começar a descobrir a si mesma. É transformar objetos simples em grandes aventuras, fazer perguntas que nem sempre encontram respostas e encontrar no olhar de um adulto a segurança necessária para explorar o desconhecido. É experimentar sentimentos, construir significados e, pouco a pouco, reconhecer quem se é. Nesse processo, a criança precisa de espaço para crescer, mas também de vínculos que lhe ofereçam proteção, acolhimento e pertencimento.
Refletir sobre a infância nos convida a olhar não apenas para as crianças, mas também para os adultos que participam de sua formação. Em um mundo marcado pela velocidade, pelo excesso de informações e pelas constantes transformações tecnológicas, corremos o risco de valorizar tanto aquilo que desejamos ensinar que nos esquecemos da importância de simplesmente estar presentes.
Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ainda assim, permanecemos diante de muitas incertezas sobre o futuro. Queremos proteger nossos filhos, evitar que sofram e oferecer-lhes oportunidades. Esse desejo nasce do cuidado, mas, quando acompanhado pelo medo, pode nos levar a antecipar perigos, controlar experiências e tentar afastar da vida das crianças tudo aquilo que consideramos difícil.
Entretanto, crescer também significa entrar em contato com limites, diferenças, frustrações e sentimentos que nem sempre são agradáveis. É nessas experiências, quando acompanhadas por adultos capazes de acolher e orientar, que a criança começa a desenvolver recursos para compreender o que sente e construir sua própria maneira de enfrentar o mundo.
Por isso, vale a pena nos perguntarmos: estamos oferecendo às crianças condições para viver a própria infância? Temos escutado o que expressam por meio das palavras, das brincadeiras, dos silêncios e dos comportamentos? Conseguimos reconhecer que, muitas vezes, aquilo que parece apenas uma birra, um medo ou uma dificuldade pode ser uma tentativa de expressar algo que a criança ainda não consegue compreender ou comunicar?
O mundo infantil possui uma riqueza interior que nem sempre pode ser traduzida em palavras. A imaginação, o brincar e as histórias que as crianças inventam são caminhos pelos quais elaboram experiências, expressam emoções e atribuem sentido ao que vivem. Quando um adulto se dispõe a escutar sem julgar imediatamente, abre espaço para que esse mundo interior seja reconhecido e acolhido.
Isso não significa concordar com todos os comportamentos ou evitar os limites. Pelo contrário, a criança precisa de referências consistentes para se sentir segura. Limites estabelecidos com firmeza e afeto ajudam a organizar suas experiências, enquanto a disponibilidade emocional dos adultos transmite uma mensagem essencial: sentir raiva, tristeza, medo ou insegurança não faz com que ela deixe de ser amada.
Também é importante lembrar que não existem pais perfeitos. Existem adultos que aprendem, reconhecem seus erros, pedem desculpas e buscam construir relações mais conscientes. Uma conversa antes de dormir, uma brincadeira compartilhada, uma refeição sem a interferência constante das telas ou alguns minutos de escuta verdadeira podem representar experiências significativas na construção dos vínculos.
Em meio à preocupação com o desenvolvimento e o desempenho infantil, precisamos preservar o tempo da infância. A criança não precisa transformar cada experiência em aprendizado formal, cada interesse em uma habilidade ou cada momento livre em uma atividade planejada. Ela também precisa brincar espontaneamente, imaginar, explorar, descansar e descobrir o mundo no ritmo que seu desenvolvimento permite.
Amar uma criança não é retirar todos os obstáculos de seu caminho, mas acompanhá-la enquanto aprende a lidar com eles. É oferecer apoio sem ocupar todos os espaços, orientar sem impedir a descoberta e proteger sem apagar sua possibilidade de experimentar. Aos poucos, essa presença permite que a segurança inicialmente encontrada nas relações se transforme em confiança em si mesma.
A maneira como uma criança é acolhida participa da construção da imagem que desenvolve de si, de seu valor e de suas possibilidades. As experiências vividas na infância não determinam, de forma absoluta, quem alguém será no futuro, mas contribuem significativamente para a maneira como essa pessoa poderá se relacionar consigo mesma, com os outros e com a vida.
Diante de tantas mudanças, talvez a pergunta mais importante sobre ser criança em 2026 não seja apenas como prepará-la para o futuro, mas que experiências estamos oferecendo para que ela possa crescer de maneira saudável no presente.
Não precisamos ter todas as respostas para um mundo em constante transformação. Precisamos compreender que a infância acontece agora, nos encontros cotidianos, nas palavras que pronunciamos, nos limites que estabelecemos e nos afetos que conseguimos expressar.
Cuidar de uma criança é também reconhecer a responsabilidade de nossa presença em sua história. Não podemos escolher todos os caminhos que ela encontrará, nem impedir todas as dores que fazem parte da existência. Podemos, porém, ajudá-la a construir uma base de segurança emocional a partir da qual seja possível enfrentar os desafios, reconhecer seus sentimentos e descobrir, com confiança, os próprios caminhos.
A infância não precisa de adultos perfeitos, mas de adultos suficientemente presentes para que a criança possa, pouco a pouco, tornar-se quem é.
*Andresa Squiçato dos Santos é psicóloga no Centro de Psicologia e Terapias Integrativas Benedita Fernandes.




