O que o sofrimento está tentando nos dizer?

*Andresa Squiçato dos Santos

Vivemos em uma época que parece ter pouca tolerância para aquilo que incomoda. Tristeza, frustração, cansaço, medo, luto e solidão são rapidamente transformados em problemas que precisam ser resolvidos. Se possível, antes mesmo que tenhamos tempo de compreender o que estamos sentindo.

Há uma espécie de obrigação contemporânea de estar bem. É preciso produzir, sorrir, cuidar do corpo, manter relacionamentos saudáveis, cultivar pensamentos positivos e demonstrar equilíbrio diante das circunstâncias. Quando não conseguimos, podemos ter a impressão de que há algo errado conosco.

Mas será que precisamos estar bem o tempo todo?

Na perspectiva da Psicologia Analítica, a vida psíquica não é feita apenas de luz. Existem também aspectos que não queremos ver, sentimentos que evitamos reconhecer e experiências que permanecem à margem da consciência. Quando rejeitamos tudo aquilo que consideramos negativo, podemos acabar nos afastando de partes importantes de nós mesmos.

A chamada “sombra” não representa simplesmente aquilo que há de ruim em nós. Ela também guarda sentimentos, necessidades e possibilidades que ainda não conseguimos reconhecer ou integrar. Por isso, olhar para o que nos incomoda pode ser menos uma ameaça e mais uma oportunidade de ampliar a consciência sobre quem somos.

Os números, entretanto, mostram que não estamos falando de uma questão individual. A edição mais recente da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, ouviu 118 mil estudantes e revelou que três em cada dez adolescentes de 13 a 17 anos se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes. Além disso, 18,5% disseram pensar, com essa frequência, que a vida não vale a pena ser vivida. (Educa IBGE)

Esses dados nos convidam a olhar para além da aparência. Nem sempre quem sofre consegue dizer o que está acontecendo. E nem todo sofrimento precisa ser imediatamente corrigido. Algumas dores precisam, antes de tudo, ser reconhecidas e acolhidas.

Isso não significa romantizar o sofrimento ou deixar de buscar ajuda quando ela é necessária. Pelo contrário. Reconhecer a própria dor pode ser justamente o primeiro movimento em direção ao cuidado.

Talvez uma das perguntas deste Setembro Amarelo não seja apenas “como evitar o sofrimento?”, mas também: “o que o sofrimento está tentando nos dizer?”

Nem sempre precisamos de respostas imediatas. Às vezes, precisamos de espaço para elaborar aquilo que ainda não conseguimos nomear. Precisamos aprender a escutar sem imediatamente corrigir, aconselhar ou minimizar.

Cuidar da saúde emocional não significa eliminar tudo aquilo que nos faz sofrer. Significa desenvolver uma relação mais consciente com aquilo que sentimos, reconhecendo que a tristeza, o medo, a frustração e o luto também fazem parte da condição humana.

Em uma sociedade que oferece inúmeras maneiras de anestesiar o desconforto, acolher aquilo que sentimos pode ser também um ato de coragem. Não para permanecer na dor, mas para compreendê-la e buscar caminhos possíveis.

Estar bem não deveria significar estar feliz o tempo inteiro. Talvez saúde emocional tenha mais a ver com reconhecer o que sentimos, nossas forças e fragilidades, acolher nossas diferentes emoções pedir ajuda quando necessário e descobrir que não precisamos atravessar tudo sozinhos.

Porque cuidar de si não é negar a própria escuridão. É aprender a caminhar com mais consciência por ela, até que seja possível encontrar novos caminhos.

*Andresa Squiçato dos Santos é psicóloga no Centro de Psicologia e Terapias Integrativas Psico Benedita Fernandes

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