*Andresa Squiçato dos Santos
Há acontecimentos que nos atravessam, mesmo quando não nos envolvem diretamente. A morte de uma jovem após cair de uma ponte durante uma atividade de salto no interior de São Paulo é um desses episódios. Uma morte repentina em um lugar de travessia desperta conteúdos profundos: lembra-nos da fragilidade da vida e da ilusão de controle que sustentamos para seguir adiante no cotidiano.
Pontes existem para ligar caminhos. Simbolicamente, porém, também nos colocam diante de escolhas, limites e riscos. Quando uma tragédia acontece em um espaço assim, ela ultrapassa a dimensão individual e se torna coletiva. Sentimos medo, indignação e tristeza, muitas vezes sem compreender exatamente a origem dessas emoções.
Talvez porque, ao ver o outro cair, algo em nós também seja convocado a parar e olhar: para nossos próprios limites, para o cuidado que temos com a vida, para o quanto banalizamos o risco e para o quanto silenciamos nossos medos.
É evidente que uma situação como essa exige apuração e responsabilização. Se houve falhas de segurança e negligência na condução da atividade, os responsáveis devem responder por seus atos. A promoção de qualquer evento que envolva riscos demanda protocolos rigorosos e atenção absoluta à integridade das pessoas.
Mas reduzir a tragédia apenas a uma falha técnica seria empobrecer seu significado. O episódio também revela algo do espírito do nosso tempo: a dificuldade crescente de estarmos verdadeiramente presentes. Vivemos acelerados, fragmentados, capturados por estímulos incessantes. A atenção — função psíquica essencial para perceber limites, avaliar riscos e proteger a vida — encontra-se enfraquecida.
Quando a consciência se afasta do momento presente, aumentam os comportamentos automáticos, a impulsividade e a sensação ilusória de domínio. Não se trata de responsabilizar a vítima, mas de reconhecer que tragédias raramente têm uma única causa. Elas expõem falhas coletivas, desconexões profundas entre o indivíduo, o ambiente e seus próprios limites internos.
Falar sobre isso não é sensacionalismo. É elaboração. É uma tentativa de dar sentido ao impacto psíquico que eventos assim produzem. Elaborar é cuidar. Precisamos resgatar a capacidade de contemplar, desacelerar e estar atentos — não apenas como prática individual, mas como valor coletivo.
Que possamos transformar o choque em consciência, o medo em responsabilidade e a dor em respeito à vida. Cuidar da saúde emocional também é reconhecer quando algo nos afeta profundamente e compreender que, em certos momentos, atravessar com atenção pode ser o que nos mantém vivos.




