A inteligência artificial está cada vez mais presente no nosso cotidiano e oferece importantes contribuições em diversas áreas, inclusive na saúde. Ela auxilia na organização de informações, amplia o acesso ao conhecimento e pode ser uma ferramenta útil em diferentes contextos. No entanto, quando o assunto é saúde mental, é preciso refletir sobre seus limites.
Nos últimos tempos, tornou-se comum recorrer a chatbots para conversar sobre sentimentos, pedir conselhos ou buscar conforto emocional. Além disso, algumas plataformas e influenciadores passaram a oferecer versões digitais capazes de simular conversas que lembram um processo terapêutico. Embora essas experiências possam transmitir sensação de acolhimento, elas não substituem a psicoterapia.
O cuidado psicológico vai muito além de responder perguntas ou oferecer sugestões. Ele acontece por meio de um encontro genuíno entre duas pessoas, em um espaço de escuta, respeito e construção de sentido. Cada indivíduo possui uma história única, marcada por vivências, emoções, conflitos, valores e experiências que não podem ser compreendidos apenas por padrões de linguagem.
Uma inteligência artificial pode identificar palavras, reconhecer comportamentos frequentes e gerar respostas coerentes. No entanto, ela não vivencia emoções, não estabelece um vínculo humano e não assume responsabilidade ética sobre o impacto de suas orientações. Por isso, não é capaz de acompanhar, de forma segura e profunda, os processos internos que fazem parte da experiência humana.
Outro aspecto importante é que, em momentos de sofrimento emocional, as pessoas costumam buscar respostas que confirmem aquilo que já sentem ou pensam. Sem o olhar clínico necessário, uma interação com inteligência artificial pode reforçar interpretações equivocadas, minimizar sinais de sofrimento ou não reconhecer adequadamente situações que exigem intervenção profissional.
Isso não significa que a tecnologia não tenha espaço na saúde mental. Pelo contrário, ela pode contribuir como ferramenta de apoio, oferecendo informações, auxiliando na organização de rotinas, no monitoramento de sintomas e até complementando o acompanhamento psicológico quando utilizada de forma ética e responsável. O problema surge quando se cria a expectativa de que conversar com uma máquina seja equivalente a vivenciar um processo terapêutico.
O sofrimento humano não pode ser reduzido a algoritmos. Cada pessoa carrega uma realidade própria, muitas vezes expressa por meio de símbolos, emoções, silêncios e significados que vão além das palavras. É justamente nesse espaço de escuta cuidadosa que se torna possível compreender o que está por trás dos sintomas e favorecer um processo de transformação.
A tecnologia continuará evoluindo e trazendo benefícios para a sociedade. Ainda assim, há algo que permanece essencial e insubstituível: a presença humana. O olhar atento, a escuta qualificada, a ética profissional e a construção de um vínculo de confiança são elementos que sustentam o cuidado psicológico e tornam possível um processo terapêutico verdadeiramente transformador.
*Andresa Squiçato dos Santos





