A chegada do fim do ano costuma despertar um misto de alívio e exaustão. Depois de meses tentando cumprir agendas, equilibrar demandas e corresponder às expectativas — nossas e dos outros —, é comum sentir que a energia acabou antes do ano terminar. Ainda assim, muitas pessoas insistem em olhar para suas metas não alcançadas como sinônimo de fracasso pessoal, ignorando que, frequentemente, esses objetivos eram simplesmente inalcançáveis desde o início.
Vivemos em uma cultura que celebra o desempenho contínuo, como se fosse possível operar no modo “eficiente” o tempo todo. A régua, quase sempre, está alta demais a um nível incompatível com a experiência real da vida psíquica. Na pratica clínica como psicóloga, observa-se o impacto direto dessa exigência sobre a saúde emocional: culpa constante, sensação de insuficiência e cansaço crônico diariamente e o peso que essa autocobrança tem sobre a saúde emocional.
Segundo pesquisas do IBGE, reforçam essa percepção ao indicar que os indicadores de bem-estar têm assumido papel central no debate público, revelando que o cansaço crônico e a sensação de insuficiência estão longe de ser experiências isoladas. O sofrimento psíquico associado à sobrecarga não é exceção — é um fenômeno coletivo. Sob a perspectiva da psicologia analítica, esse cenário revela um afastamento progressivo do sujeito em relação aos seus próprios limites, necessidades e ritmos internos, elementos fundamentais do processo de individuação descrito por Carl Jung.
O fim do ano deveria representar um momento de pausa e revisão e assimilação da experiencia, não de autopenalização. É preciso abandonar a lógica de que tudo precisa ser cumprido no mesmo ciclo e reconhecer que metas irreais não medem competência — apenas na verdade, apenas evidenciam o conflito entre o que o indivíduo é e aquilo que o meio social espera que ele seja. a distância entre o que somos e o que o mundo tenta nos impor. Acolher-se é fundamental.
Olhar para trás com honestidade, compreender onde foi possível avançar e onde foi necessário parar, faz parte de qualquer jornada saudável de autoconhecimento.
Também é urgente questionar narrativas que se espalham nas redes sociais, alimentadas por influenciadores que promovem a falsa ideia de autossuficiência absoluta. Esse discurso, de que “basta querer” ignora fatores emocionais, sociais e inconscientes, além de produzir um efeito perverso: responsabiliza o indivíduo por tudo o que não deu certo.
Nenhum sujeito se constrói sozinho. A negação da dependência e da vulnerabilidade não fortalece, adoece. Além de superficial, é cruel. Ele convence as pessoas de que, se algo deu errado, a responsabilidade é exclusivamente delas. Não é. Nenhum indivíduo dá conta de tudo sozinho — e não deveria.
Buscar ajuda profissional não é sinal de fragilidade e fraqueza, mas de maturidade psíquica.
A psicoterapia oferece espaço de escuta e elaboração segura para reorganizar expectativas, fortalecer a autoestima e construir novas formas de lidar com pressões internas e externas. Encerrar o ano acolhendo a própria história, reconhecendo limites e aprendizados, é um movimento simbólico de consciência gesto de coragem. E é justamente desse gesto que pode nascer que nasce um recomeço mais gentil, mais ético consigo mesmo — e mais humano.

- Andresa Squiçato dos Santos é psicóloga na Clínica Psico Benedita Fernandes





